Histórias

DOS CONVIDADOS

As trajetórias abaixo foram construídas a partir das próprias falas dos convidados nos episódios do podcast. Escolha um nome e leia a história como ela foi contada à nossa mesa.

Odacil Ranzi

Odacil Ranzi

Pioneiro do Cerrado, ex-presidente da AIBA e da Bahia Farm Show

Espumoso (RS) — Luís Eduardo Magalhães (BA)

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Pioneirismo no CerradoAIBABahia Farm ShowCooperativismoOeste BaianoInfraestrutura

O agronegócio brasileiro é feito de histórias de coragem, resiliência e visão de futuro. No Oeste da Bahia, uma das regiões que mais cresce em produtividade no país, poucos nomes representam tão bem esse espírito desbravador quanto o de Odacil Ranzi. De um jovem contador que deixou o Rio Grande do Sul em busca de oportunidades até se tornar presidente da Associação de Agricultores e Irrigantes da Bahia (AIBA) e um dos líderes mais respeitados do setor, sua trajetória se confunde com o próprio desenvolvimento de Luís Eduardo Magalhães e do cerrado baiano.

As raízes italianas e a herança da agricultura familiar

A relação de Odacil com a terra começou muito antes de seu nascimento. A família Ranzi tem origem em Trento, na Itália, na divisa com a Áustria. Fugindo da fome e da crise que assolava a Europa no fim do século XIX, seu bisavô imigrou para o Brasil com a esposa e um filho de dois anos, chegando a Bento Gonçalves (RS) em 20 de dezembro de 1875. O nome dele figura hoje entre os pioneiros da cidade gaúcha, em um totem histórico em frente à estação Maria Fumaça.

O pai de Odacil, Saul Ranzi, cultivava uma pequena colônia de 25 hectares em Pontão do Butiá, hoje município de Espumoso (RS), onde Odacil nasceu em 3 de dezembro de 1953. A infância foi marcada pelo trabalho na roça: plantio de trigo, milho e mandioca, criação de porcos e um moinho colonial movido por roda d'água. A busca por educação o levou à cidade: estudou em Soledade e Passo Fundo, formou-se Técnico em Contabilidade em 1972 e em Ciências Econômicas pela Universidade de Passo Fundo em 1977. Trabalhou como contador desde muito jovem, mas o sonho de voltar à terra nunca o abandonou.

O chamado do cerrado baiano

No fim dos anos 1970, o Oeste da Bahia era uma região inóspita, conhecida em Salvador apenas como “Além São Francisco”. Não havia infraestrutura, estradas asfaltadas ou energia elétrica. Mas corria a notícia de que as terras eram férteis, planas e com um regime de chuvas promissor. Ao ouvir que um executivo havia pedido demissão para investir em São Desidério, a curiosidade falou mais alto: “Aquilo bateu no meu cérebro, ficou na minha cabeça e ficou me instigando. Pedi 10 dias de licença da empresa. Vim, olhei, me apaixonei. Pedi demissão, voltei e comprei a fazenda.”

Com 26 anos, pouco dinheiro — o equivalente ao valor de um carro usado — e muita determinação, uniu forças com a família do sogro. Em 1980, compraram 2.300 hectares na região de Placas, área de platô na divisa com Goiás (hoje Tocantins). A escritura foi assinada em 27 de dezembro de 1980, data emblemática que coincidia com o nascimento e o falecimento de sua mãe. Ali nascia o Grupo Passo Fundo.

O preço do pioneirismo

Os primeiros anos foram de extrema dificuldade. Odacil e seu sócio moravam debaixo de uma barraca de lona. Banho apenas aos domingos, com canecas de água buscada a 22 quilômetros de distância. A alimentação era carne de lata, arroz e feijão. “A gente demorou quatro, cinco anos para fazermos o poço artesiano. Foram cinco anos pegando água nessa distância”, contou.

O primeiro plantio, em 1981, foi de 180 hectares de arroz. No ano seguinte, arriscaram cerca de 80 hectares de soja, com produtividade em torno de 17 sacas por hectare. O calcário vinha de Brasília ou Sergipe, enfrentando filas de caminhões e estradas precárias; o armazenamento era improvisado e a soja colhida na seca ficava empilhada na roça. Mesmo diante de veranicos severos, “desistir” nunca fez parte do seu vocabulário. Com novas variedades de soja, como a Cristalina, e o plantio direto na palhada a partir dos anos 2000, a produtividade deu um salto histórico. Hoje o Grupo Passo Fundo cultiva milhares de hectares de soja, milho e algodão, além de fruticultura irrigada, com médias que rivalizam com as melhores do país.

Liderança institucional e espírito cooperativista

A trajetória de Odacil não se resume às lavouras. Ele compreendeu cedo que o desenvolvimento individual no cerrado dependia da força coletiva. Foi tesoureiro da Comunidade de Placas, ajudou a construir um poço artesiano e a Escola Municipal Rui Barbosa em 1988, garantindo educação aos filhos dos colaboradores. Atuou como tesoureiro da APAE de Barreiras e vice-presidente da CDL da cidade.

À frente da AIBA (2021-2024), liderou a construção de 250 km de asfalto e 6 pontes via PRODIAGRO, impulsionou os estudos sobre o Aquífero Urucuia e fortaleceu o fundo social Fundesis. Como presidente da Bahia Farm Show, ampliou em 76% a área útil do parque, dobrou o número de expositores (de 220 para 438), construiu a sede própria da AIBA no complexo e recebeu presidentes da República no evento. Sócio fundador e ex-presidente da Cooperfarms, ajudou a criar a cooperativa para combater o “Custo Bahia” na compra de insumos e liderou a aquisição de 500 hectares para a futura verticalização industrial.

Sua gestão foi marcada pela humanização e pelo conceito ESG antes mesmo de a sigla se popularizar: implementou plano de saúde e plano de carreira para os colaboradores, reforçando que o crescimento deve ser compartilhado. Também articulou acordos históricos, como a definição da linha divisória entre Bahia e Tocantins, trazendo segurança jurídica aos produtores da região.

O Cidadão Baiano e o legado

O reconhecimento veio em muitas formas: Cidadão Barreirense, Cidadão Honorário de Luís Eduardo Magalhães e de Angical, além da prestigiada Medalha Tosta Filho. O ápice ocorreu em abril de 2025, quando a Assembleia Legislativa da Bahia outorgou-lhe o título de Cidadão Baiano. Na cerimônia, cercado pela esposa Ediana — com quem é casado há quase 50 anos —, pelas três filhas (Ana Carolina, Vanessa e Lívia) e pelos netos, emocionou-se ao dividir a honraria com colaboradores e parceiros de jornada: “A vida é feita de coisas simples, e é fundamental mantermos essa simplicidade.”

Para Odacil, o produtor rural é “uma dádiva de Deus”. Ele costuma citar a máxima de que “se as cidades perecerem, o campo permanece, mas se o campo perecer, as cidades desaparecem”. Sua história é a prova viva de que o agronegócio brasileiro foi construído não apenas por máquinas e sementes, mas por pessoas de coragem, que transformaram savanas isoladas em celeiros do mundo.

Ninguém faz nada sozinho aqui.
EP 121 - O Cerrado que ninguém queria: Odacil Ranzi conta como nasceu a potência do Oeste Baiano
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História construída a partir da transcrição do episódio.