
Ireneu Orth
Produtor rural, presidente da Aprosoja-RS e senador da República, 75 anos
Tapera, Rio Grande do Sul — Correntina (BA)
Convidado do Agro em Debate, o podcast do agronegócio brasileiro.
Resumo
A história do agronegócio no Brasil não é escrita apenas por tratores, sementes e tecnologia, mas fundamentalmente por pessoas.
- Atuação
- Produtor rural, presidente da Aprosoja-RS e senador da República, 75 anos
- Origem
- Tapera, Rio Grande do Sul — Correntina (BA)
- Episódios
- 1
Temas
Biografia
A história do agronegócio no Brasil não é escrita apenas por tratores, sementes e tecnologia, mas fundamentalmente por pessoas. Homens e mulheres que enfrentaram o desconhecido, desbravaram novas fronteiras e, acima de tudo, organizaram o setor para superar crises históricas. Um desses nomes incontornáveis é Ireneu Orth.
Aos 75 anos, o produtor rural, ex-prefeito, senador da República e presidente da Aprosoja-RS carrega uma trajetória que se confunde com a própria evolução da agricultura nacional nas últimas cinco décadas. Em entrevista exclusiva ao Agro em Debate, gravada durante a Bahia Farm Show, ele abriu o livro de memórias e compartilhou os desafios, as derrotas quase fatais e as vitórias que moldaram sua vida.
AS RAÍZES EM TAPERA: O PRIMEIRO DINHEIRO E A COOPERATIVA
Nascido em 22 de julho de 1950, em Tapera, no interior do Rio Grande do Sul, Ireneu é filho de pequenos agricultores e carrega no sangue a herança dos avós de origem alemã, Frederico e Ana Orth. A ligação com a terra e com a comunidade veio de berço: seu pai foi um dos fundadores do sindicato dos trabalhadores rurais da região.
"Eu me lembro como menino, o primeiro dinheiro que eu ganhei na vida... a minha mãe tinha umas vaquinhas, tirava leite e eu levava o leite nas costas quando ia para aula, a pé. No fim do mês, o pessoal pagava, eu botava o dinheiro na caixinha da mãe", recordou.
Aos 17 anos já demonstrava tino para os negócios, precisando ser emancipado pelo pai para fazer seu primeiro financiamento de maquinário agrícola. Depois de servir ao Exército, iniciou uma carreira de 15 anos na cooperativa Cotrisoja (1969 a 1982): entrou como office boy e saiu como diretor financeiro, passando por todas as áreas da empresa.
A POLÍTICA POR ACASO E A LIDERANÇA INSTITUCIONAL
A entrada na política foi inesperada. Em 1982, aos 32 anos, um dos candidatos a prefeito de sua chapa faleceu em um acidente e Ireneu foi convocado para manter a sublegenda. "Como eu era diretor financeiro na cooperativa, eu era o carrasco, né? Eu tinha que cortar o crédito do pessoal. Pensei: acho que vai ser difícil ganhar a eleição", brincou. Venceu por 20 votos de diferença e acabou eleito prefeito de Tapera quatro vezes, governando a cidade por 18 anos.
Sua vocação para liderar grupos se expandiu para a defesa do produtor rural: foi fundador e primeiro presidente dos Sindicatos Rurais de Tapera e Selbach, é fundador e atual presidente da Aprosoja-RS, 1º diretor administrativo da Aprosoja Brasil (triênio 2024-2027) e assumiu o Senado Federal em 2024, como suplente de Luis Carlos Heinze.
No final dos anos 1990, teve papel crucial na histórica securitização das dívidas rurais. Liderando comitivas ao Palácio do Planalto, ajudou a convencer o governo FHC a alongar as dívidas dos produtores para 25 anos. "A última prestação desse alongamento aconteceu no ano passado. Foi a redenção da agricultura, foi onde nós crescemos", afirmou.
O DESBRAVAMENTO DA BAHIA: DA QUASE FALÊNCIA AO SUCESSO
Enquanto construía sua liderança no Sul, Ireneu expandia fronteiras agrícolas. Após uma breve experiência em Campo Verde (MT), ele, o irmão Afonso e um cunhado apostaram no inóspito cerrado baiano no início dos anos 1980, comprando cerca de 10 mil hectares na região do Rosário, em Correntina (BA). A terra não tinha nada, nem um palanque de cerca, e os bancos se recusavam a financiar o projeto.
O primeiro plantio, de 500 hectares de soja e arroz, foi feito "na raça", com produtividade entre 25 e 40 sacas por hectare. "Houve momento em que meu irmão foi no mercado comprar o rancho para os funcionários e não tinha mais crédito. E eu vinha do Sul de carro... não tinha dinheiro para pôr combustível", revelou. No Plano Collor, a família quitou as dívidas, percebeu erros nos cálculos bancários e entrou na Justiça em 1996; quase três décadas depois, a fazenda é credora do banco.
A VIRADA DE CHAVE E A ALTA PRODUTIVIDADE
Hoje a propriedade, gerenciada pelo filho Douglas, soma cerca de 20 mil hectares entre áreas próprias e parcerias, com soja, algodão, milho e sorgo em alta tecnologia. Foram 77 sacas de soja por hectare na safra 2022, 67 em 2023 e 72 em 2024. Com o boom de preços de 2022, a família quitou todos os endividamentos externos e opera hoje com grande solidez financeira.
A LUTA ATUAL NO SENADO E A DEFESA DO PRODUTOR
Em abril de 2024, Ireneu assumiu uma cadeira no Senado Federal em meio a uma das piores crises climáticas e financeiras da história do Rio Grande do Sul, agravada pelas enchentes e por quatro anos de seca severa. Como relator do PL 1.536/2024 e articulador de novas propostas de securitização, luta por um novo alongamento das dívidas rurais. "Se o produtor não tiver acesso a financiamentos com juros compatíveis com a atividade, nós vamos ter problemas, sim, vai cair a nossa produção", alertou.
Ele critica a visão deturpada de parte da sociedade sobre o agro: "Dizem que soja é produto de exportação, que tem que plantar a pequena propriedade... Claro que é importante a pequena propriedade, eu sou filho dela. Mas a soja e o milho vão para onde? Viram frango, viram porco." Para ele, o seguro rural deveria ser política de Estado: "A gente está tentando apagar um incêndio enquanto a causa raiz não está sendo tratada".
O LEGADO DE UM LÍDER
Perto de encerrar sua carreira política em 2026, Ireneu olha para trás com a certeza do dever cumprido. Além do patrimônio construído no campo e da liderança nacional do setor, nunca abandonou as causas sociais de sua cidade natal, atuando na diretoria do hospital e do asilo de idosos de Tapera.
Sua história é um testemunho de que o agronegócio brasileiro não foi construído por acaso, mas pela teimosia de homens que, mesmo sem crédito e sem dinheiro para o combustível, recusaram-se a abandonar a terra.
“Foi a redenção da agricultura, foi onde nós crescemos.”
Episódios
Perguntas frequentes
- Quem é Ireneu Orth?
- Ireneu Orth é produtor rural, presidente da Aprosoja-RS e senador da República, 75 anos. A história do agronegócio no Brasil não é escrita apenas por tratores, sementes e tecnologia, mas fundamentalmente por pessoas.
- De onde é Ireneu Orth?
- Tapera, Rio Grande do Sul — Correntina (BA).
- Sobre o que Ireneu Orth fala no Agro em Debate?
- A conversa passa por liderança no agro, aprosoja, securitização de dívidas, cerrado baiano, política e agro, rio grande do sul.
- Onde assistir à entrevista de Ireneu Orth?
- No episódio "EP 118 - Do interior de Tapera -RS a senador da República.", disponível no canal do Agro em Debate no YouTube.


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Jeremias e Jonas Demito